OS MENINOS DO CAMBUÍ

 


*Os Meninos do Rio Cambuí*

Por Abilio Machado

Era uma manhã ensolarada no início da década de 70, e a pequena vila, Vila Silka, aqui mesmo em Campo Largo, onde cresci estava desperto com a brisa fresca que soprava pelo Rio Cambuí e a famosa área nativa que chamávamos de Ilha. O sol brilhava intensamente, prometendo um dia perfeito para aventuras ao ar livre. Éramos garotos como os de hoje, cheios de energia e curiosidade, mas com um diferencial que nos ligava diretamente à natureza e à simplicidade daquela época.


Naquela manhã, decidimos que nada poderia ser melhor do que uma boa nadada no rio. O Rio Cambuí era nosso parque de diversões, nosso refúgio e, muitas vezes, nossa segunda casa, e também nosso campo de futebol improvisado bem próximo,  como a nossa descida para carrinhos de rolimã próximo ao pocinho ou bang bang nos campos das pequenas matas. Descalços, corríamos pelas trilhas de terra batida, e banhado, desviando dos galhos baixos,  espinhos e das pedras que conhecíamos tão bem. Nossos risos ecoavam pela entre beira da pequena floresta e a nova rodovia em frente a vila, misturando-se com o canto dos pássaros, o murmúrio do rio e ruidosos caminhões que hoje só vistos em museus e velhas fotos amareladas.



Chegando à margem, não hesitamos em nos despir de nossas roupas desgastadas. Ali, no meio da natureza, a nudez não era algo embaraçoso ou estranho, mas sim a expressão máxima da liberdade. Mergulhávamos na água fresca, sentindo o frio agradável que nos revigorava e nos fazia esquecer do calor do verão. Nadávamos como pequenos peixes, explorando cada canto, cada pedra submersa, cada pequena correnteza na represa que nos mesmos fizemos no pequeno trecho do Cambui, bem ao lado onde as mulheres da Vila batiam e coravam as roupas. Não era incomum estarmos ao mesmo tempo naquele espaço de natureza fantástica e de uma beleza ímpar.



O tempo parecia parar enquanto nos divertíamos. Saltávamos das árvores como tarzans, competíamos para ver quem conseguia nadar mais rápido,  quem fixava submerso por mais tempo e ríamos das tentativas desajeitadas de imitar os grandes mergulhadores que víamos na televisão, que diga-se raras residências possuiam. A simplicidade daqueles momentos era o que tornava nossas vidas tão especiais. Não precisávamos de brinquedos caros ou de tecnologias avançadas para sermos felizes; a natureza nos fornecia tudo o que precisávamos.


Lembro-me de um dia em particular, quando João, o mais travesso de todos, teve a brilhante ideia de tentar pescar com as mãos, imitando o famoso Osvaldo Filho de Dona Laide. Entre gargalhadas e tentativas frustradas, ele conseguiu agarrar um peixe pequeno, que logo escapou de suas mãos. A cena foi tão cômica que rimos até nossas barrigas doerem. João, todo orgulhoso, jurou que da próxima vez pegaria um peixe maior. Claro, nunca conseguiu.



A inocência daqueles dias era algo palpável. Não tínhamos preocupações com o futuro, apenas vivíamos o presente com intensidade e alegria. O Rio Cambuí era nosso santuário, onde podíamos ser nós mesmos, sem julgamentos ou pressões. Uma piada ou outra sobre tamanhos de pênis, fimoses e bumbuns brancos, e nada mais. Éramos apenas meninos, livres e felizes.



Hoje, ao olhar para trás, percebo como aqueles momentos foram importantes para moldar quem somos. A simplicidade e a conexão com a natureza nos ensinaram lições valiosas sobre respeito, amizade e liberdade. E, embora os tempos tenham mudado, a memória daqueles dias de nadar nus no Rio Cambuí permanece viva em nossos corações, lembrando-nos de que a verdadeira felicidade está nas coisas simples da vida.

Por Abilio Machado, um dos meninos do Rio Cambuí.

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