🌿 — Coração Assistido
🌿 — Coração Assistido
Há homens que dizem ter um grande coração.
Eu tenho um coração supervisionado.
Não é metáfora.
É tecnologia.
Carrego no peito um pequeno dispositivo que, se meu coração resolver improvisar demais, intervém. Já foram alguns sustos desde que foi implantado...
Um corretor ortográfico cardÃaco.
Um editor elétrico do meu ritmo.
Um anjo engenheiro trabalhando em silêncio sob a pele.
No começo, a ideia parecia coisa de ficção cientÃfica.
Metade homem, metade manual de instruções.
Mas a realidade é menos dramática e mais cotidiana: ele fica ali, discreto, vigilante, sem aplausos.
E então vem o espelho.
Há um momento curioso na maturidade:
o dia em que você se olha não para arrumar o cabelo,
mas para conferir a própria história.
Fico diante do vidro observando o relevo suave no lado esquerdo do peito.
Não é exagerado.
Mas eu sei que está ali.
A cicatriz central desce pelo esterno como uma estrada antiga.
Não é mais ferida — é travessia fechada.
A pequena marca horizontal, um pouco acima do músculo, quase passa despercebida.
Mas sob ela mora meu vigilante elétrico.
Há homens que carregam medalhas no peito.
Eu carrego monitoramento.
E quer saber?
É libertador.
Porque chega uma idade em que a gente entende que independência absoluta é um mito juvenil.
Todo mundo é assistido por algo:
Uns pela fé.
Outros por remédios.
Alguns por terapia.
Eu, por um circuito.
No inÃcio pensei: isso é fragilidade.
Hoje percebo: é pacto com a vida.
Meu coração não perdeu autonomia.
Ganhou companhia.
Passo a mão sobre o relevo — não por medo, mas por reconhecimento.
Não é vaidade.
É conferência de presença.
Ali, sob a pele, não mora fraqueza.
Mora persistência.
A juventude exibe força.
A maturidade integra limites.
O coração não é sÃmbolo de invencibilidade.
É sÃmbolo de insistência.
Ele falha.
Ele cansa.
Ele acelera quando não deve.
E agora tem quem o lembre do compasso.
O espelho não devolve um homem quebrado.
Devolve um homem atualizado.
Versão 2.0.
Com suporte técnico.
Se o orgulho perguntasse, talvez eu preferisse um peito liso, intacto, imune ao tempo.
Mas a experiência responde com humor:
Intacto é porcelana.
Eu sou cerâmica restaurada.
E cerâmica restaurada carrega história nas fissuras.
Não sou metade máquina.
Sou inteiro humano — com reforço.
Entre carne e impulso elétrico existe um acordo silencioso.
Entre cicatriz e sobrevivência existe uma aliança.
Fecho a camisa.
O mundo não vê nada.
Mas eu sei:
aqui dentro bate um coração que aprendeu que não precisa ser herói solitário.
Ele é assistido.
E continua firme.
E talvez maturidade seja exatamente isso:
aceitar ajuda —
e ainda assim permanecer inteiro.

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