Incêndios Instantâneos
Esta crônica é uma delícia para ler. Incêndios Instantâneos já arde só no título — feito pra deixar marcas. Com certeza sua noitecsera mais reflexiva, mais cheia de pólvora seca nas suas paixões, mexerá com suas lembranças é com o coração... espero que goste, comente e compartilhe...
Incêndios Instantâneos
Por Abilio Machado
O fogo já não aquece, queima — e tão depressa que mal dá tempo de reconhecer o nome no outro antes de virar cinza. Hoje, amar é colocar a mão no maçarico com um sorriso no rosto e dizer “vai que dá”, mesmo sabendo que não dá. As relações modernas são fogos de artifício: lindas, barulhentas, intensas — e se apagam antes que a fumaça assente.
Numa era onde deslizar o dedo é mais íntimo que um beijo, os vínculos escorrem pelos dedos como gasolina. Tudo é combustão imediata. Te encontrei, me encantei, te devorei, me fui. A velocidade é afrodisíaca. A profundidade? Medo. Amamos como quem corre para fugir de si: uma maratona de promessas não ditas e orgasmos apressados, onde o depois sempre parece mais assustador que o agora.
Ele dizia “você é diferente” enquanto digitava “oi sumida” para três outras ao mesmo tempo. Ela jurava “nunca senti isso antes” enquanto comparava perfis como se escolhesse o vinho do fim de semana. A conexão não era alma com alma, era Wi-Fi. Fraca. Instável. Senha trocada a cada novo trauma.
Não é que falte amor — ele sobra. O que falta é coragem de manter-se ali quando o brilho vira breu. Todo mundo quer amar, mas ninguém quer passar pelo momento em que o outro revela o lado sem filtro. E quando chega a hora de encarar o reflexo feio do espelho — as manias, os silêncios, o passado — foge-se. Porque a intensidade é só gostosa quando é curta. Depois ela vira peso. E o amor, um campo minado.
É bonito no começo: olhos que brilham, mãos que se procuram, pele que se arrepia com qualquer toque. Mas tão rápido quanto isso se acende, se esfria. E então sobra o vazio. Um buraco no meio do peito com eco de promessas não cumpridas. Uma saudade do que talvez nunca tenha existido. E quem vem depois herda os estilhaços de uma guerra travada em silêncio.
As relações de hoje são como balas doces com recheio de ácido: o sabor vem primeiro, o ardor depois. E quando se percebe, já se está com medo de amar de novo, com medo de ser real. A confiança vira um fio dental puxado por ventania. A esperança, uma piada contada sem graça.
Porque ninguém quer construir castelo, todo mundo quer tirar selfie no trono. Mas o trono é de areia, e a maré sempre sobe.
No fim, o que resta? Olhares que não se sustentam, mensagens que somem no vácuo, e corações embrulhados no plástico bolha da desconfiança. Todo mundo ferido demais pra se entregar, mas carente demais pra ficar sozinho. Um paradoxo cruel que nos joga num carrossel de relações relâmpago: paixão, explosão, frustração, repetição.
O amor hoje é um incêndio em terreno seco. O estalo da faísca já assusta. O calor, embora desejado, queima sem pedir licença. E tudo vira carvão antes que o coração entenda o que, de fato, sentiu.

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