Entre os vãos dos dedos
Há uma lenda de que Picasso, numa roda de jovens pintores, explicava lhes por que, não obstante a idade, trabalhava com ardor e sem desfalecimentos: "A glória sempre nos escapa por entre os dedos, como a água .*
Ora, meu grande artista, quanta coisa na vida, além da glória, nos escapa por entre os dedos como a água. Escapam-nos as ilusões da mocidade e escapa-nos o amor com seus encantos. Vai-se o idealismo e, tanta vez, o que é ainda mais doloroso, a própria coragem de viver. Esvai-se a capacidade criadora e a divina faculdade de sentir. E de tanta coisa lhe fugir por entre os dedos, de tão batida pelos vendavais e tempestades da vida, a pobre criatura humana, mal chega aos umbrais da velhice, com mui raras exceções, já nada mais guarda do que foi ou do que prometera ser. Lembrei-me agora de tantas promessas minhas que não levei a cabo.
Pensando bem, neste mundo, somente as coisas tristes não nos fogem por entre os dedos. O remorso, o ciúme, a dor de uma saudade, isso são coisas que aderem à alma como a pérola à sua concha e, muita vez, vão conosco por toda a vida. Mesmo o tempo que dizem ser o remédio das desditas, apenas consegue dar-nos a resignação, ou melhor, a confissão da derrota ante o irremediável.
A glória é dama caprichosa e cheia de requintes: pouquíssimos conseguem conquistá-la. E acontece sempre serem os dedos que a retém não mais dedos de vivos senão dedos de mortos. Tiradentes, por exemplo, é uma glória da nacionalidade, mas a caprichosa deusa não o acompanhou em vida. Ajoelhou-se, sim, no seu túmulo e ai permaneceu como companheira fiel. E o sublime idealista que, em vida, talvez, com ela jamais ousara sonhar, teve-a a pranteá-lo e a cultuar-lhe a memória.
De glórias efêmeras muitos se envaidecem, tal como se confundissem a cortesã com a companheira fiel. Mas essas mostram-se tão levianas, que abandonam os escolhidos, ainda em vida destes. E então se costuma dizer que os grandes de ontem cairam no ostracismo ou foram esquecidos pelos amigos, ou o que eu digo não se fizeram-lhes fiéis à continuação de sua estima pela história já que essa vai aos poucos senhora esquecida ou ora deformada ao bel prazer das ideologias.
Mesmo ante ao que Rui Barbosa disse em haver apenas uma glória digna deste nome: a glória de ser bom eu creio que estão incluídos no todos aqueles que doaram alguma coisa de útil ou de belo à Humanidade. A gloria de Pasteur e a de Marie Curie jamais serão ofuscadas. Enquanto houver inteligencia e senso artistico sobre a terra, haverá quem torne imortal o nome de Sócrates ou de Cícero, o de Voltaire ou o de Bilac, e tantos outros
Alguns conquistam a glória com o martírio, outros como trabalho e a inteligência, e ainda outros mais com a virtude. Mas há os que entraram para a galeria dos imortais pela maldade. E desses tão tristes é a fama, que não usamos o nome de glória para classificar-lhes a imortalidade E antes o pesadelo de tão profunda e triste recordação que a passagem do tempo não consegue desvanecer como um sonho mau que se eternizou.
Como muitos que foram chamados heróis, que lutaram contra o regime militar é que depois se travestiram em armaduras iguais aos que antes combatiam, eis a grande frustração ante o tudo acontecido, o que põe em cheque mate toda e qualquer ação febril quando esta glória se politiza é se polariza.
#cronicasfebrisresgatadas
#poethaabiliomachado

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