Ode à língua portuguesa de Anisia Cotta (1983)

 

ODE À  LÍNGUA PORTUGUESA


Barroca, me disse um amigo

ambígua me disse um amante.

Só sei que adoro proparoxítonas:

píncaro, pêndulo, tarântula...


E os "inhos" de paizinho 

pãozinho quente

mãozinhas de criança  

puxãozinho de orelha 

cheinho de entornar

crescidinha pra namorar.


Gosto dos "ões" de tostões

porções, monções 

orações 

canções, cantatas,

ai que me perco em tantas


tantas palavras cujo som

cuja lavra e larvas, lascivas

saem macias com a saliva

escorregam pela boca

                                          e ficam dependuradas

singelamente dependuradas

                                           querendo ser saboreadas.


Amo a nossa barroca e ambígua Língua Portuguesa

indecisa, imprecisa, por um triz 

deixa de ser rainha e vira meretriz.

Ou freirinha

beliscões 

meirinho

facões mouros

atávicos bordões. 

Vôo de andorinhas antes da chuva.


Amo-te à portuguesa e à  brasileira

um bocado africana

às vezes sacana

ainda que vá se acasalando

com outros ritmos

outras bromas

estranhos idiomas de estranha raíz. 


Amo-te porque me dizes em cada sílaba 

o que preciso saber

em ti me fiz criança e adulto que lê. 

Sou tua cadência 

latência e sono

sou teu vigor e abandono. 

Tu dás nome aos objetos 

às coisas, lugares 

e às partes do meu corpo.


Até na pedra te cantarei.

Do berço ao túmulo te ouvirei e só  em ti

última flor do Lacio

conhecerei a paz

ou ao menos saberei que a paz não existe.


(Anisia Cotta, Campinas, 1983)


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