NÃO FIQUE TRISTE SE EU PARTIR
No leito da UTI cárdio, 12° andar do Complexo Hospital de Clinicas, antes de um procedimento delicado resolvo escrever algo especial para você 🫵... Eu Abilio Machado 🎅
NÃO FIQUE TRISTE SE EU PARTIR…
Não fique triste se eu partir.
Mas também… não precisa fazer festa, né? Vamos manter um certo equilíbrio emocional, que exagero nunca combinou muito com a gente.
Se eu partir, leve comigo só o necessário:
aquela risada fora de hora,
os silêncios que diziam mais que discursos,
e os abraços que demoravam um pouco além do socialmente aceitável — porque a gente sempre suspeitou que o tempo, esse apressado, precisava ser contrariado de vez em quando.
Não fique triste se eu partir…
mas, se der uma saudade daquelas que aperta o peito como botão de calça depois do almoço de domingo, deixa vir.
Saudade também é uma forma bonita de dizer: “valeu a pena”.
Se eu partir, não precisa ficar revendo minhas fotos como quem procura pistas de um crime mal explicado.
Eu não fui um mistério… fui mais um rascunho mesmo.
Daqueles que a gente tenta melhorar, apaga aqui, borra ali, e no fim chama de obra pronta só porque acabou o tempo.
E olha… se você lembrar de mim, por favor, não escolha só os momentos bonitos.
Lembra também das minhas confusões, das minhas tentativas desajeitadas de acertar, das vezes em que eu errei com convicção — porque, convenhamos, até nisso eu fui dedicado.
Não fique triste se eu partir…
mas, se for chorar, que seja com dignidade — nada de soluço dramático de novela das nove.
Um choro honesto, desses que escorre quieto, já resolve.
E depois, por favor, toma um café. A vida continua exigindo cafeína e coragem.
Se eu partir, siga vivendo.
Siga rindo de coisas bobas, reclamando do calor, se irritando com filas, se emocionando com músicas antigas.
Porque a vida não é um evento solene… é mais um improviso bem-intencionado.
E, no meio de um dia qualquer, quando você menos esperar —
entre uma tarefa chata e um pensamento distraído —
se surgir um sorriso lembrando de mim…
pronto.
É assim que eu fico.
Não nas despedidas,
mas nos intervalos.

Comentários
Postar um comentário