Cadê Meu Pinto ?! - da Serie 30 CAUSOS GELADOS
Chegou o inverno. O frio invadiu as frestas da casa, se enfiou por debaixo das cobertas e, sem pedir licença, fez morada no banheiro. E é sempre no banheiro que o inverno mostra sua verdadeira face: cruel, gelado e impiedoso.
Pois bem. Hoje cedo, com a coragem de um guerreiro medieval, levantei-me da cama para minha missão matinal. A jornada até o banheiro parecia a travessia de uma tundra siberiana — pés descalços, ar cortante, e o pressentimento de que algo não terminaria bem.
Ao chegar lá, tremendo como vara verde, abri o zíper da calça e... pânico.
“Cadê meu pinto?” — gritei, em tom de descoberta e desespero, como se tivesse perdido uma parte do corpo no front de batalha.
Nada. Sumido. Recolhido como um caracol diante do apocalipse. Como se dissesse: “Vai lá sozinho, herói. Eu fico aqui no modo inverno.”
Não me entenda mal — ele ainda estava lá. Só que parecia ter voltado ao modo fábrica, versão 0.5 beta.
Tentei esquentar as mãos. Soprei nelas como se fosse ressuscitar um morador de rua congelado. Mas o frio, meu amigo, já havia vencido. Me restou apenas o consolo filosófico: a dignidade também encolhe no inverno.
Dizem que o frio é elegante. Só se for pra quem usa cachecol francês e toma vinho tinto ao lado de uma lareira. Pra gente comum, o frio é inimigo do ego e da anatomia. Ele tira nossa compostura e, às vezes, nosso pinto também.
Moral da história? No inverno, o melhor é fazer xixi sentado. Pelo menos o susto é menor.
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Este texto faz parte do e-book "30 CAUSOS GELADOS" de Abilio Machado

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